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Teatro vira terreiro em protesto contra episódio histórico

Invasão consentida ao palco do Deodoro deu início à discussão sobre o Quebra de Xangô, mais de quatro décadas após a sangrenta noite que destruiu os templos afros
30/01/2012 09:40
por Larissa Bastos e Wellington Santos
Teatro vira terreiro em protesto contra episódio histórico

Teatro serviu de palco para a I Semana dos Cultos Afrobrasileiros

A série 100 anos do Quebra de Xangô, do Suplemento do Diário Oficial, revela os bastidores de como o principal palco cultural alagoano, o Teatro Deodoro, se transformou em um terreiro para discussão e protestos mais de quatro décadas depois do sangrento 1de fevereiro de 1912, em uma das primeiras manifestações públicas contra o Quebra.


Era década de 1960 e, numa cidade ainda fascinada com os costumes e elementos europeus, o Teatro Deodoro figurava como um dos principais pontos da alta sociedade maceioense. Mas, frequentado por ilustres personalidades – e justamente por isso –, o espaço foi o escolhido para o resgate de um dos episódios mais emblemáticos de Alagoas: o Quebra de Xangô. Foi lá que a perseguição política e religiosa começou a ser não só combatida, mas também relembrada.


Transformado em terreiro, o teatro serviu de palco para a I Semana dos Cultos Afrobrasileiros, uma espécie de protesto contra as opressões sofridas por mães e pais de santo desde 1912, quando casas de candomblé foram invadidas e destruídas – um acontecimento até então mantido longe da memória popular. O movimento foi encabeçado pelo professor e historiador Luis Sávio de Almeida e teve a permissão do então diretor geral do local, Bráulio Leite.


A ideia era chocar a elite, objetivo concretizado com a realização de rituais a portas fechadas. “Às seis horas, trancávamos o Deodoro e os tambores começavam a soar. Os cultos tinham direito a tudo, com danças e religiosos incorporando entidades. Até mesmo o tablado foi utilizado para a macumba. As autoridades não puderam fazer nada, já que tudo foi consentido pelo Bráulio, que foi fantástico e esteve presente todo o tempo”, recorda Sávio de Almeida.
 

Orixás baixam no palco
Pensada e coordenada também pelo procurador de Estado Marcelo Teixeira, pelos babalorixás Luiz Marinho, Celestino, Joca e Edinho e pelo coronel Belarmino, policial e filho de santo, o movimento chamou a atenção. Durante os sete dias, cerca de 20 mil pessoas passaram pela exposição de artefatos religiosos montada no espaço e mais de oito mil adeptos das crenças da matriz africada, inclusive do interior do Estado, participaram das cerimônias.


Nem todos, porém, concordaram com a atitude. “Havia rachas entre os centros e muitos acharam ruim, dizendo que nunca viram orixá artista pra descer o santo em teatro. Só sei que, apesar de chocar, a manifestação conseguiu minimizar a perseguição. O governo quis até incluí-lo no calendário oficial, mas não aceitamos”, diz o historiador que, na ocasião, fazia um levantamento sobre os terreiros de Maceió e por isso foi convocado para ajudar a causa.


Os cultos foram um sucesso e, após a invasão, era hora de ‘limpar’ o Teatro Deodoro. “Os babalorixás disseram que tínhamos mexido com a natureza e era preciso limpar o espaço ou ele não ficaria de pé. Eu, inocente, perguntei quanto iam custar as vassouras. Mas não era isso; era limpeza espiritual. Liguei pro Bráulio pra avisar que ele teria que abrir o teatro de madrugada. Nós dois ficamos no centro do ritual e ainda tivemos que entregar a comida do Exu”, conta Sávio de Almeida, que recebeu uma reza de proteção.


Ele lembra que foi apenas depois de toda essa movimentação que o Quebra de Xangô começou a ser relembrado. “Foram esses fatos que ajudaram a circular a história. Quando eles me procuraram falando em perseguição da polícia e até em cobrança de dinheiro, vi que precisávamos de algo grande, capaz de escancarar os terreiros e trazer à tona o que estava escondido. Foi aí que começou a efervescência quanto ao tema”, expõe.


Desconhecimento e mistério
Segundo ele, a sensação de desconhecimento que ainda cerca o tema mesmo após 100 anos se deve à falta de estudo sobre o que realmente aconteceu. Apenas três teses de mestrado e uma de doutorado com relação ao episódio foram elaboradas no Estado. Além disso, boa parte dos registros é proveniente do Jornal de Alagoas, diário oposicionista ao governo Euclides Malta e que noticiaria os eventos apenas pela vertente da “história branca”, como define Sávio.


“Os fatos foram analisados pelo olhar da oligarquia e não pela ‘história negra’. É preciso cuidado para não reduzi-los à história branca, tornando-os uma parte dela. Também temos a carnavalização do que aconteceu, com histórias como a da cabeça de bode enterrada no Palácio. O que sabemos do aspecto religioso é a saída dos sacerdotes e o surgimento do Xangô rezado baixo. Nem mesmo as consequências políticas foram estudadas a fundo”, remonta o professor.


Seja como for, com os acontecimentos sendo contados sob a perspectiva dos negros ou dos brancos, o fato é que a morte e a fuga de muitos dos pais e mães de santo alagoanos acabaram deixando esse quebra-cabeças sem algumas de suas principais peças. Episódio marcante da cultura de Alagoas, o Quebra de Xangô resistiu ao tempo, mas, ainda que aguente a passagem de mais um século, deve continuar envolto na mesma aura de mistérios.
 

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